Player
Tocando Agora
Carregando...
an news

A longevidade e o custo de continuar vivendo | Cidade Cidadã

Não adianta uma medicina cada vez mais capaz de prolongar a vida se as cidades devolvem ao indivíduo e à família a responsabilidade por sustentá-la

A longevidade e o custo de continuar vivendo | Cidade Cidadã

A medicina aprendeu a evitar muitas mortes que, poucas décadas atrás, pareciam inevitáveis. Um infarto deixou de significar necessariamente o fim da vida. Um AVC pode ser tratado rapidamente. Diabetes, hipertensão e diferentes tipos de câncer passaram a ser acompanhados durante anos. Essa é uma das grandes conquistas do nosso tempo. No entanto, ela trouxe uma questão para a qual ainda não encontramos resposta à altura: o que acontece com a vida depois que conseguimos preservá-la?

A pergunta ganha outra dimensão numa América Latina que envelhece em surpreendente velocidade e acumula doenças crônicas. Dados recentes da Organização Pan-Americana da Saúde mostram que cerca de 470 milhões de pessoas nas Américas vivem com algum transtorno neurológico. Mais importante do que a dimensão do número é perceber uma mudança no problema: parte crescente da carga dessas doenças está na incapacidade vivida ao longo dos anos.

É nesse ponto que saúde e cidade deixam de ser assuntos separados.

Pensemos em alguém que sobrevive a um AVC aos 68 anos. O hospital pode ter funcionado à perfeição, porém a recuperação que começa depois da alta dependerá de uma engrenagem muito maior: reabilitação acessível, atenção primária capaz de acompanhar diferentes condições simultaneamente, renda, serviços próximos e uma rede de cuidado que permita a essa pessoa continuar participando da vida cotidiana. Quando essas peças não se articulam, uma sequela clínica pode se transformar em perda progressiva de autonomia. O endereço, nesse sentido, passa a interferir no prognóstico.

É difícil pensar nessa desigualdade sem voltar ao sociólogo e cientista político Lúcio Kowarick (1938-2020). Ao formular o conceito de espoliação urbana, ele mostrou que a precariedade da vida nas cidades não poderia ser explicada apenas pela renda. O acesso desigual aos bens e serviços coletivos também retirava das pessoas condições fundamentais para viver. Décadas depois, é inadiável atualizar a pergunta: o que significa essa espoliação em uma sociedade que envelhece e na qual milhões viverão por muitos anos com doenças crônicas?

Ela pode estar justamente na distância entre sobreviver e conseguir continuar vivendo.

Eugênio Vilaça Mendes, sanitarista e especialista em planejamento de saúde, ajuda a compreender outra parte do problema. Ao estudar as condições crônicas, mostrou a inadequação de sistemas de saúde organizados predominantemente para responder a episódios agudos. Uma população que vive mais com doenças cardiovasculares, diabetes, câncer, demências e sequelas neurológicas necessita de continuidade do cuidado, integração entre serviços e acompanhamento ao longo do tempo. 

Eu acrescentaria um passo: continuidade do cuidado também é uma questão territorial.

Não adianta uma medicina cada vez mais capaz de prolongar a vida se nossas cidades devolvem ao indivíduo e à família a responsabilidade por sustentá-la. Quando a reabilitação está distante, os serviços não se articulam e o cuidado depende de uma filha que reduz sua jornada de trabalho para acompanhar o pai. Nesse cenário, não estamos apenas diante de um problema familiar como também em frente a uma escolha coletiva sobre quem assume o custo de envelhecer.

Eis, portanto, um dos grandes desafios da saúde urbana: não apenas evitar a morte, mas impedir que sobreviver signifique desaparecer progressivamente da vida social. Isso exige territórios em que o cuidado e a reabilitação façam parte do cotidiano dos cidadãos, apoiados por políticas de saúde, assistência, habitação e mobilidade que criem condições para preservar a autonomia ao longo do envelhecimento, em vez de transferir essa responsabilidade exclusivamente para o indivíduo e sua família. .

Celebramos, com razão, a longevidade como uma das grandes conquistas da contemporaneidade. Contudo, talvez o seu verdadeiro valor seja medido pelo que conseguimos fazer com os anos que acrescentamos à vida. A medicina pode nos devolver o tempo. A cidade precisa nos permitir continuar pertencendo a ele.

* Gabriela Vasconcelos, coordenadora de projetos no Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, é economista, urbanista social e mestranda em Saúde Pública na FSP/USP

 

 

BATANEWS/VEJA

Comentários

Comentário enviado com sucesso!
Carregando comentários...